Estudos Bíblicos

Raizes da Enfermidade de Uma Igreja

Raizes da Enfermidade de Uma Igreja
Wilson Lemos
Escrito por Wilson Lemos

O apóstolo Paulo diz que, além de todas as dificuldades, prisões, açoites, perigos de morte e perseguições diversas que ele enfrentava, havia algo que sobre si pesava muito:

          “Além das coisas exteriores, há o que pesa sobre mim diariamente, a preocupação com todas as igrejas.” (2 Co 11:28) 

Para essa mesma igreja ele escreveu também:

          “Quisera eu me suportásseis um pouco mais na minha loucura. Suportai-me, pois porque zelo por vós com zelo de Deus; visto que vos tenho preparado para vos apresentar como virgem pura a um só esposo, que é Cristo.” (2 Co 11:1-2)

Cristo, o Noivo, tinha o seu amigo, o apóstolo Paulo, que cuidava da sua Noiva. Paulo era alguém que tinha uma paixão por vê-la bem, e cooperava com o Senhor, preparando-a para apresentá-la como Noiva digna do seu Noivo, o Rei dos reis e Senhor dos senhores. O seu maior peso sempre foi o de que as igrejas estivessem puras, isto é, sem contaminações; não estando enfermas, portanto.

Analisemos o que pode fazer com que uma igreja adoeça. Muitas são as raízes que lhe podem causar problemas com seríssimas conseqüências, a ponto de ficar até mesmo com uma enfermidade mortal.

Raízes de Enfermidade em Duas Igrejas do Novo Testamento

As igrejas de Corinto e da Galácia, principalmente, deram muito trabalho para o apóstolo Paulo, como podemos depreender de suas epístolas. Nem todas as igrejas do primeiro século eram igrejas “super-espirituais”,  ou irrepreensíveis,  como  podemos erroneamente imaginar. Elas enfrentavam a luta do dia-a-dia contra o pecado, e contra os falsos mestres e falsos profetas.

Dá para você imaginar uma igreja em que alguém, envolvido na comunhão, participante assíduo da vida da igreja, estivesse vivendo maritalmente com a esposa do seu próprio pai (sua madrinha)? E isso sendo ainda de conhecimento público, uma vez que até o apóstolo ficou sabendo? Qual seria sua reação? Certamente de indignação. Mas foi o que aconteceu, de fato, em Corinto.

O apóstolo Paulo teve que escrever:

          “Geralmente, se ouve que há entre vós imoralidade e imoralidade tal, como nem mesmo entre os gentios, isto é, haver quem se atreva a possuir a mulher de seu próprio pai. E, contudo, andais vós ensoberbecidos e não chegastes a lamentar, para que fosse tirado do vosso meio quem tamanho ultraje praticou? ” (1 Co 5:1-2)

Temos a tendência de romantizar as igrejas neotestamentárias, como se elas fossem igrejas perfeitas, com todos os problemas resolvidos. Mas as igrejas primitivas tinham também problemas e elas enfrentavam a seriedade do pecado e o drama dos homens caídos. Os gálatas, por sua vez, foram chamados de “insensatos” por Paulo:

          “Ó gálatas insensatos!. Quem vos fascinou a vós outros, ante cujos olhos foi Jesus Cristo exposto como crucificado? Quero apenas saber isto de vós: recebestes o  Espírito pelas obras da lei ou pela pregação da fé?”(G\ 3:1-2)

Quando Paulo perguntou “quem vos fascinou?”, ele quis dizer quem vos enfeitiçou? Debaixo de que tipo de encantamento vocês estão? É uma frase forte! Os gálatas estavam caindo na sedução dos judaizantes que estavam ali, levando os cristãos da Galácia a voltarem à antiga prática de cumprir a lei para serem justificados. Ele lhes disse ainda:

          “Outrora, porém, não conhecendo a Deus, servíeis a deuses que, por natureza, não o são; mas agora que conheceis a Deus ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como estais voltando, outra vez, aos rudimentos fracos e pobres, aos quais, de novo, quereis ainda escravizar-vos?” (Gl 4:8-9)

A luta de Paulo era mostrar que — se eles tinham abandonado os deuses que não eram deuses, depois de conhecerem a Jesus Cristo de Nazaré, depois de terem experimentado toda a graça de Deus, depois de terem se libertado do cativeiro daqueles deuses — como estariam eles querendo escravizar-se novamente?

Não tenhamos a ilusão de que todas as igrejas estavam bem. Ou que havia igrejas perfeitas. Nós, os crentes de todas as épocas, somos uma comunidade de santos de um lado, mas também somos uma comunidade de seres humanos com todas as suas fraquezas e limitações. E nesta nossa limitação é que a glória de Deus quer se fazer presente.

O Diagnóstico de Jesus sobre a Igreja de Laodicéia

Para nos auxiliar neste capítulo, e para que possamos discernir algumas verdades bíblicas acerca da Igreja, vamos tomar ainda, por base, um texto do Apocalipse. Refiro-me à seqüência de cartas dirigidas às igrejas da Ásia, que nos dá uma visão clara de como o Senhor enxergava cada uma delas. Mas vamos concentrar a nossa atenção a uma delas em especial: a igreja de Laodicéia.

Ao que parece, o diagnóstico de Jesus quanto à Igreja de Laodicéia parece caber muito bem na grande maioria das igrejas do século XXI. Veja o texto:

          “Ao anjo da igreja em Laodicéia escreve: Estas coisas diz o Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o princípio da criação de Deus: Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente. Quem dera fosses frio ou quente! Assim, porque és morno e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca; pois dizes: Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma, e nem sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu.

          Aconselho-te que de mim compres ouro refinado pelo fogo para te enriqueceres, vestiduras brancas para te vestires, afim de que não seja manifesta a vergonha da tua nudez, e colírio para ungires os olhos, a fim de que vejas. Eu repreendo e disciplino a quantos amo. Sê, pois, zeloso e arrepende-te.

Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele, comigo. Ao vencedor, dar-lhe-ei sentar-se comigo no meu trono, assim como também eu venci e me sentei com meu Pai no seu trono. Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz ás igrejas.” (Ap 3:14-22)

Nem quente nem fria

Em primeiro lugar, o Senhor diz que aquela igreja não era nem quente nem fria, era morna. Sua inevitável conclusão veio de constatar que conhecia as obras daquela igreja. A maneira de Jesus conhecer as nossas obras pode ser bem diferente da opinião que nós mesmos temos delas. A Igreja de Laodiceia não parecia conhecer as suas próprias obras tão bem quanto Jesus porque, segundo o que o texto nos revela, ela tinha uma visão completamente errada de si mesma.

A Igreja de Laodiceia achava-se rica, abastada e longe de necessitar de qualquer coisa. Seu anjo dizia: “Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma”. Era uma igreja cega, orgulhosa, distante do conhecimento de Deus, ainda que pensasse que o conhecia. Se assim não fosse ela saberia quão “infeliz, miserável,pobre, cega, e nua” ela era.

Muitas de nossas igrejas estão de forma semelhante, isto é, satisfeitas com a sua pobreza espiritual e com a sua mediocridade, com a sua carnalidade, com a sua politicagem e com o seu controle humano – coisas que suprimem totalmente a ação do Espírito Santo.

Vejamos um pouco mais sobre as origens da igreja de Laodiceia para melhor entender o ensinamento bíblico. Ela foi fundada em 250 a.C. por Antíoco Epifânio, da Síria. Localizava-se numa encruzilhada distante 160 quilômetros de Éfeso e 80 quilômetros de Filadélfia, no encontro de três estradas importantes.

Ela era uma das cidades mais ricas da Ásia Menor. Para se ter uma ideia da sua riqueza, ela orgulhosamente recusou a ajuda de Roma quando foi destruída por um terremoto, em 60 A.D. Ela foi reconstruída com o dinheiro da cidade, ou seja, da prefeitura da época, sem nenhuma ajuda externa!

A riqueza de Laodiceia originava-se de três fontes principais: ela era o centro industrial que fabricava roupas de uma lã negra e reluzente. Havia criações de ovelhas negras na região de Laodiceia e, com essa lã, eram tecidas as roupas. Ali também funcionava o centro bancário de toda a Ásia, cuja especialidade era a venda e compra de ouro. Em terceiro lugar, as riquezas também eram oriundas da Medicina.

A cidade era um centro médico especializado em oftalmologia, e muitos tornaram-se ricos vendendo colírios para as doenças dos olhos. Com tanta prosperidade material, é triste pensar que a Igreja de Laodiceia foi a única que não recebeu do Jesus ressurrecto nenhuma palavra de elogio.

A condenação de Jesus é cruel e muito contundente. Como deveria ser grande a indiferença, a altivez, a justiça própria daquela igreja – a ponto de ela receber uma palavra que podemos parafrasear da seguinte forma: “Você é insuportável, você me provoca náuseas! Por isso vou vomitá-la!”

Parece-me que o problema maior não é ser frio, completamente distante de tudo o que é de Deus… O problema é ficar em cima do muro, com um pé na igreja e outro no mundo, manipulando as coisas, as pessoas e as situações, transformando o evangelho em algo que se manipula para melhor adequar-se à nossa vontade.

Ou melhor, de forma a adequar-se à nossa falta de vontade de ter um compromisso sério com Deus.

Parece que a igreja de Laodiceia era muito voltada para si mesma, sempre pensando: “Quando convém, faço como Deus quer, quando não convém, faço como eu quero.”

Isso é muito triste e muito sério. A Palavra nos adverte que não podemos beber o cálice de Deus e o cálice dos demônios, não podemos servir a Deus e a Mamom… não podemos ter dois senhores, porque acabaremos por nos agradar de um, e nos aborrecer do outro. (1 Coríntios 10:21; Lucas 16:13.).

De onde vem a mornidão?

A igreja de Laodiceia estava sendo seduzida e enganada pela ilusão que vinha da riqueza da própria cidade. A independência econômica e social era tão grande, a riqueza era tão palpável e a capacidade de “viver por si mesma” tão evidente que isso contaminou a essência da igreja ao ponto de ela vir a crer que também era rica, abastada e auto-suficiente. Ela achava que de nada necessitava. Que grande engano! Como se as riquezas espirituais fossem alcançadas da mesma maneira que as materiais!

De alguma forma o espírito de soberba da cidade havia penetrado na igreja para lhe dar a sensação de uma falsa segurança e satisfação. Mas, na realidade, ela vivia uma pobreza espiritual tão intensa que Jesus a chamou de miserável.

Conforme vemos no texto, o caminho para enriquecer espiritualmente era um apenas: ela teria de comprar dele mesmo, do Senhor, o ouro espiritual, isto é, o ouro provado pelo fogo do Espírito Santo.

Jesus está dizendo que enquanto não formos provados pelo fogo, e passarmos por testes de críticas, de negação do eu, de perseguição e de tribulação, seremos pobres. O material que devemos usar para construir o nosso edifício espiritual tem que ser ouro, prata, pedras preciosas, e não palha, feno e madeira (1 Coríntios 3:12-13).

É através da provação que temos condições de lançar mão destes “materiais de construção” tão preciosos.

          “Amados, não estranheis o fogo ardente que surge no meio de vós, destinado a provar-vos, como se alguma coisa extraordinária vos estivesse acontecendo. ” (1 Pe 4:12)

Não é assim? A provação acontece para que em tudo sejamos capazes de glorificar a Deus. E só o glorificaremos quando formos provados e aprovados, quando tudo quanto lhe apresentarmos estiver reluzindo pela prata, pelo ouro, pelas pedras preciosas duramente refinadas nas fornalhas da provação.

Jesus, porém, não se limita apenas a esta orientação no que diz respeito ao progresso espiritual daquela igreja. Ele a orienta a comprar dele vestidos brancos, para que não apareça a vergonha da sua nudez. De fato ela estava nua, a despeito da rica roupagem de lã negra de que tanto a cidade se orgulhava.

Muito embora todos os dias, nas reuniões daquela igreja, provavelmente as “madames” da época exibissem os seus mantôs, e os senhores se orgulhassem da beleza dos seus casacos produzidos ali mesmo e tão cobiçados… tudo aquilo não estava cobrindo o seu verdadeiro estado de espírito, a sua nudez! Os seus pecados hipocritamente ocultos estavam ali para serem notados e perceptíveis aos mais sensíveis que sabiam como discernir a situação: a sua atitude de orgulho, de soberba, de justiça própria, a autoconfiança, a egolatria.

Ao serem iludidos dessa forma, crendo e confiando na cobertura material, esqueciam-se do mais importante: de que a vergonha do seu pecado e a falta de santidade estavam expostas, tremendamente expostas.

Jesus a chamou para que se arrependesse. Ele está desafiando o seu povo a voltar, a mudar o seu rumo pela confissão dos seus pecados e rebeliões contra Deus. Só desta forma ela poderá receber do Senhor as roupas brancas da justificação e da santificação.

Por último, Jesus referiu-se à sua cegueira. É interessante pensar que Laodiceia era também um centro oftalmológico…

Parece que tudo o que sobejava material e humanamente falando era justamente o que de menos havia entre os cristãos de Laodiceia. Os colírios de cura que a cidade fabricava em nada lhe adiantavam para desenvolver a percepção espiritual. Pois ela havia perdido a capacidade de discernir espiritualmente, havia perdido o poder para identificar a verdadeira riqueza espiritual.

Ela estava cega porque não conseguia mais discernir as motivações do coração e as intenções do espírito. A espada do Espírito não mais funcionava, pois ela dividiria o espírito da alma, juntas e medulas e seria apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração. (Hebreus 4:12).

A espada do Espírito discerniria, principalmente, de onde vêm as habilidades espirituais. Mas para aquela igreja, se os dons espirituais provinham de Deus ou das trevas, ou do próprio homem, isso era da menor importância, desde que não atrapalhassem o curso que eles mesmos davam à sua vida.

Os olhos daquele povo precisavam do colírio de Deus; era necessário que suas escamas caíssem para que pudessem ver. Paulo também orou, com toda sabedoria, que os nossos olhos fossem iluminados. (Ef.1:18) Daí a exortação: “Aconselho-te… que de mim compres… colírio para ungires os olhos, a fim de que vejas.”

O Senhor do lado de fora da igreja

O pior pecado que podemos verificar nessa Igreja é que ela havia colocado o Senhor da Igreja do lado de fora.

O Cabeça do corpo não tinha vez no seu próprio corpo! Não estava havendo lugar para a atuação do Senhor, e ele não poderia suportar essa situação nauseante. Ele disse que a vomitaria da sua boca. A sua soberba, a sua confiança própria, a sua idolatria ao dinheiro e a sua posição a tornavam insuportável.

Ela havia perdido a primeira paixão pelo seu Salvador e estava morna. Aparentemente ele tinha se ausentado, saindo da igreja. A mornidão, a soberba, o orgulho, a auto-suficiência, a vergonha do pecado exposto e a cegueira espiritual levaram Jesus a ficar do lado de fora da igreja.

Mas, agora, ele diz que está à sua porta, batendo, pedindo a quem ouvir a sua voz que venha abri-la, permitindo a sua entrada, para que possam cear juntos. Nesse pedido Jesus revela o seu desejo de ter intimidade com a igreja.

É interessante contextualizar um pouco o significado do termo “cear”. Não é como acontece hoje em dia, especialmente na nossa cultura, uma coisa aparentemente corriqueira e destituída de um significado maior.

Naquela época o ato de sentar-se à mesa com alguém era algo muito mais sério e comprometedor do que se possa imaginar. Demonstrava intimidade, confiança, empatia mútua. Era algo íntimo. Por isso o próprio Senhor Jesus foi tão questionado em relação ao fato de “sentar à mesa com publicanos e pecadores, e prostitutas”.(Mateus 9:10-11; Lucas 7:36-39.)

             “Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele, comigo.” (Ap 3:20)

Para Jesus poder entrar pela porta, essa igreja teria que passar pelo arrependimento. Apesar de ser insuportável o estado da igreja, ele a ama, e por isso vai discipliná-la. Ele apela: “Sê pois zeloso, e arrepende-te”

Somente por meio do verdadeiro arrependimento estaria preenchida a condição para Jesus poder entrar e cear.

E, por fim, a única frase de consolo diante de uma repreensão tão dura. Foi quando Jesus disse: “Estou fazendo isso, igreja de Laodiceia, porque eu repreendo e disciplino a quantos amo”.

O apelo de Jesus é “arrepende-te”! Não há outro caminho. Jesus não está dizendo ao mundo para arrepender-se, mas à sua Igreja.

Aquele que arrepender-se e permitir a nova entrada de Jesus vale a seguinte palavra de incentivo:

          “Ao vencedor, dar-lhe-ei sentar-se comigo no meu trono, assim como também eu venci e me sentei com meu Pai no seu trono.” (Ap 3:21)

É certo que a igreja de Laodicéia existiu num determinado período da história. Sabemos que este texto refere-se à igreja histórica, para a qual foi escrita, mas não somente a ela. Laodicéia, em termos espirituais, refere-se à Igreja de Cristo destes últimos dias, isto é… dos nossos dias. É uma figura profética da situação dos cristãos que estarão às vésperas da segunda volta de Jesus, vivendo tempos muito difíceis.

São tempos em que a tecnologia, a ciência, o racionalismo, o relativismo e o tremendo avanço científico do mundo permearão a vida da igreja. E quando o “amor se esfriará de quase todos” (Mateus 24:12), estaremos sujeitos a ação de “espíritos enganadores e ensinos de demônios ” (1 Timóteo 4:1).

Será o tempo em que o confronto espiritual com as trevas se intensificará, porque Satanás sabe que pouco tempo lhe resta.

Então, para entendermos a dimensão espiritual da problemática das igrejas temos de, primeiramente, compreender o momento em que estamos vivendo. E, depois, balizar cada situação, trabalhando com absoluta honestidade.

Raízes de Enfermidade das Igrejas de Hoje

          Tendo visto algumas das raízes de enfermidade da igreja de Laodicéia, que retrata a igreja de hoje, vamos analisar diretamente a igreja de nossos dias. Quais são as raízes de enfermidade a que nossas igrejas estão sujeitas?

Nesta análise vou relatar a situação de algumas igrejas reais, de minha experiência, para que assim possamos tirar algumas importantes conclusões. Você vai poder ver como nesses casos “há obras de palha”, como há “vestes contaminadas” e como está faltando “colírio nos olhos”, para que as pessoas, e principalmente os pastores, possam ver a realidade.

Espírito de adultério controlando o púlpito

          Certa vez um colega de ministério compartilhou comigo a situação do seu pastorado. Contou-me acerca de todos os seus sofrimentos e lutas dentro da Comunidade que liderava. Havia muita traição, murmuração e excessivo espírito crítico.

As pessoas falavam mal e faziam todo tipo de comentários maldosos por trás dele, o pastor. Era grande o sentimento faccioso na Igreja, bem como os conflitos e brigas constantes entre os oficiais da igreja.

A situação era tão angustiante, gerava um clima tão hostil e tenso que até mesmo a esposa desse pastor chegou ao ponto de ter um aborto espontâneo, por causa do sofrimento acarretado pelo ministério.

Mas, se não bastassem os problemas internos, a frustração era grande porque a igreja não crescia. Todas as outras, ao redor, localizadas no mesmo bairro, cresciam, mas aquela que ele pastoreava, não. Pelo visto aquela situação terrível não ia ter fim. Eram problemas atrás de problemas.

Foi assim até que uma pessoa teve uma visão em que viu um Principado dominando certos setores da igreja. Aquele tipo de discernimento era até então pouco compreendido. Mas certamente havia algum tipo de legalidade espiritual dando espaço para que demônios agissem naquela igreja.

E assim eles começaram a orar pedindo direção, e que Deus perdoasse os pecados da igreja.           Pois sem dúvida os pecados teriam sido a porta de entrada, estariam abrindo as brechas e dando direito para a atuação de certos espíritos malignos, cujo propósito era o de levar a Comunidade à destruição.

Durante essas intercessões, Deus guiou o pastor no sentido de examinar as atas da igreja, pois ele não conhecia a sua história. Feito isso, percebeu uma coisa inédita! A igreja tinha passado por uma história curiosa. No espaço de vinte anos haviam passado pela igreja seis pastores. E, mais ainda, todos eles, sem nenhuma exceção, tinham tido problemas na área de adultério.

Com esses dados, de repente ele entendeu o por quê daquelas terríveis lutas que ele mesmo vinha travando no púlpito. Agora ele entendeu a razão daquele cheiro de perfume barato usado por prostitutas, que ele vinha sentindo, justamente quando estava para pregar.

Então compreendeu a razão da presença de mãos invisíveis que o acariciavam, no púlpito, quando ele estava para entregar a mensagem que Deus havia dado (essas coisas ele vinha sentindo, numa estranha percepção; ele não entendia direito o que estava acontecendo).

Havia espíritos atuando, então, que eram enviados pelo Principado que domina a área de adultério e prostituição, que estava agindo na igreja havia muito, muito tempo. Os pecados de adultério cometidos pelo primeiro pastor, vinte anos atrás, tinham aberto brechas, criando uma legalidade que se perpetuou ao longo dos anos.

O segundo pastor também caiu nas malhas do mesmo espírito, e foi expulso. Como não havia ninguém que remisse o pecado, o espírito de prostituição fortalecia-se, a cada vez, para a luta tornar-se mais aguerrida. E continuou criando novas vítimas, chegando ao número de seis.

Cada vez, quando os pecados do pastor eram descobertos, a liderança da igreja ficava irada e o expulsava. Mas ninguém sabia que era importante a igreja, como um todo, arrepender-se daqueles pecados (pois o pecado do pastor era um pecado da igreja) e pedir perdão por eles diante de Deus.

Os pecados não confessados diante de Deus foram uma porta de entrada para os demônios. E, agora, eles atacavam com toda liberdade aquela igreja, principalmente o pastor.

Muitas vezes não temos a percepção da real dimensão de como o pecado é nocivo e de quanto a conivência com ele, ainda que feita na ignorância, pode ter conseqüências catastróficas no reino espiritual. O próximo passo é passar do reino espiritual para o físico, e então vemos suas conseqüências no nosso dia-a-dia e nas pessoas que nos cercam.

Mas graças a Deus porque ele nos dá a revelação, e assim podemos deixar de ser assolados pelo inimigo. O pastor colocou-se então na brecha pelos pastores que o antecederam, na presença de Deus, e pediu perdão pelos adultérios cometidos.

Se ele não tivesse feito isso, possivelmente ele seria o sétimo a cair nas redes do espírito que se fortalecia dia a dia. A falta de identificação desses espíritos malignos que estavam atuando no contexto da igreja já estava criando condições para fazer uma nova vítima. Mas a misericórdia de Deus permitiu que o pastor discernisse o problema e tudo viesse a ser resolvido satisfatoriamente.

Esposa de Belzebu

Ministrei uma certa mulher que tinha sido mãe-de-santo no Candomblé. Durante o tempo da sua vida em que era enganada pelas trevas, ela acabou sendo “esposa” de um espírito de nome Belzebu. Quando ela me procurou, ela veio em busca de libertação. Disse-me que já havia algum tempo se convertera e freqüentava a igreja de Cristo. Tinha também se casado com um obreiro.

Apesar de todas essas bênçãos, ela continuava em desespero, estava debaixo de uma opressão muito grande. O problema haveria de estar na sua vida pregressa, algo terrível de se compartilhar. Ela tinha sido “esposa de Belzebu”, e esse espírito sempre dizia estar muito satisfeito com ela.

Ela aparentava estar satisfeita com o seu horroroso mestre e guia, “fazendo as adivinhações e demonstrando o poder de Belzebu, que até mesmo fazia curas”. Mas chegou um dia em que o seu guia mostrou a sua verdadeira natureza: pediu-lhe a vida do filho dela em sacrifício.

Isso ela não poderia aceitar, de forma nenhuma. Revoltada, abandonou as práticas de Candomblé. E, sabendo que somente o Cristianismo poderia fazer alguma coisa, começou a freqüentar uma igreja evangélica. Na realidade ela estava fugindo de Belzebu. Ali ela se converteu e conheceu o obreiro com quem se casou.

A felicidade dos dois parece que não durou muito porque logo começaram a notar algo estranho. Ela ouvia rumores de que o seu marido, agora pastor, a estava traindo e dormindo com várias mulheres da igreja.

Não demorou muito para que ficasse constatado o fato. Então ela se revoltou e resolveu que deveria vingar-se dele, retribuindo tanta humilhação e desprezo. E achou que nada seria melhor do que pagar com a mesma moeda, isto é, também cometendo adultério.

Ela começou então assediar e concretizar suas intenções com os homens da igreja. O que mais revoltava e condoía-lhe o coração era que nem dentro do Candomblé ela havia visto esse tipo horrível de comportamento.

O argumento para ela era muito forte: como algo assim podia acontecer dentro da igreja de Cristo? Se acontecia, era porque a igreja não era tão diferente do mundo e, se de fato não era, ela não estava tão errada em querer defender-se à sua maneira. E aquela terrível seqüência de eventos fez com que a igreja fosse destruída.

Para que eu a ministrasse pessoalmente foi uma odisséia, pois ela enfrentou todo tipo de impedimento pelos espíritos. Cada vez que ia marcar a sua ministração de libertação pessoal, ou participar de um seminário de libertação, onde ela poderia ser ministrada, ela era sistematicamente barrada. Aconteceu até mesmo de um dia ela quebrar um dos braços por ter caído com o movimento do ônibus em que estava.

Finalmente chegou o dia da sua libertação. Ela veio com a sua mãe, seu filho e uma irmã. Toda a família foi ministrada.

Sua libertação foi precedida por um tempo de confissão e profundo arrependimento, com a quebra de todos os vínculos e alianças. Vi então muitos demônios identificando-se e saindo, para nunca mais voltarem (mais de sessenta entidades foram renunciadas e expelidas). A partir daquele dia, ela foi liberta do jugo que a tinha levado cativa por tanto tempo.

Por esta história você pode ver como estava a esposa daquele pastor. Como ela nunca tinha sido orientada para passar por uma libertação, não pensava em tomar qualquer providência, e não sabia o que fazer. Daí o inimigo aproveitou-se da situação para criar todos os problemas que criou.

Não será este tipo de situação que muitas igrejas estão enfrentando, por falta de conhecimento?

Aquela igreja teve que fechar. Os pastores se separaram e isto fez com que o nome de Jesus fosse blasfemado pelos seus inimigos (2 Samuel 12:14).

Aquela igreja, aquela comunidade, não apenas estava desesperadamente doente, na verdade não tinha nem mesmo condições de subsistir. Principalmente os próprios líderes necessitavam de libertação (Quanto à esposa do pastor, a quem ministrei, soube depois que ela estava restabelecendo o seu casamento, voltando com ele, pois tinham se separado).

Um casal de cambono roubando a igreja

          Em outra ocasião eu estava ministrando numa conferência de pastores, quando uma pastora me passou o seguinte:

Nós tínhamos um auditório de cinco mil lugares e uma freqüência de oitocentas pessoas. Havia um casal de tesoureiros que nos ajudava. Num dia de semana, indo à igreja, eu os encontrei ali e, quando os vi, era como se tivesse visto Satanás neles. Muito abalada, comentei com o meu marido:

— Meu bem, eu vejo demônios na vida daqueles dois.

Mas meu marido reagiu, dizendo:

— Ora, lá vem você com essa mania de ver demônios em tudo.

E não me deu atenção. Posteriormente descobrimos, com respeito àquele casal de tesoureiros, que eles tinham sido cambonos (cambono é aquele que ajuda um pai-de-santo em seus rituais), e que vinham nos enganando e roubando. O que se coletava na igreja era usado por eles em boates. Um ataque veio depois, tão grande, que meu marido me deixou, e eu fiquei só, e tivemos que fechar a igreja.

Aparentemente essa igreja estava sendo minada por pessoas que tinham sido enviadas para destruí-la. A falta de discernimento dos líderes e a recusa em examinar o que de errado havia nas pessoas suspeitas permitiu que houvesse a separação dos pastores e o fechamento da igreja.

Igrejas que estão fechando

Um dia recebi a seguinte carta de um pastor:

É do conhecimento, em todo o Brasil a situação do trabalho da … (nome da denominação) no Estado de …, onde as igrejas já foram fortes, vibrantes, auto-sustentáveis, com bonitos templos, com grandes propriedades, salas, instrumentos musicais. Hoje, a situação é de estar em praticamente fechando e sem condições de dar continuidade ao trabalho de evangelização no Estado.

Posso citar três exemplos de situações extremas:

(1) A igreja … organizada há 35 anos, já teve mais de 100 membros. Hoje tem apenas seis, não recebe nem R$100,00 de dízimos e ofertas, apesar de possuir toda infra-estrutura para crescer, com uma excelente localização na entrada da cidade.

(2) A igreja …, depois de uma história de crescimento, está fechando, e o atual pastor, que trabalha na obra em tempo integral, está numa situação da mais absoluta penúria financeira.

(3) Na igreja…, não fosse o fato do pastor ser militar reformado, ele estaria também passando fome.

Poderia ainda citar:…, que recebe ajuda das igrejas do Paraná e de São Paulo;….., que é composta de uma membresia extremamente carente, com maior parte dos membros desempregados. Isto só para citar as igrejas deste planalto em que trabalho.

(Este foi o resumo de uma carta de um pastor, pedindo socorro. Ele está dando cobertura às igrejas de sua denominação, localizadas no planalto de um dos nossos estados.)

Este pastor, que me enviou esta carta, além de uma pensão do governo, vende pizzas, e por isso não depende de ofertas; pelo contrário, ele está investindo mensalmente uma importância sua nessas igrejas, que ele assumiu ajudar.

Seria interessante analisar o que de fato aconteceu com essas igrejas que outrora tiveram uma história mais feliz e foram prósperas…

Diante do que você acabou de ver, é muito claro que há muitas igrejas que estão doentes. Muitas delas não apresentam sinais de saúde espiritual. Há vários sintomas que evidenciam a sua enfermidade. Estão muitas vezes divididas, atadas, cegas, enfraquecidas, sem poder, sem capacidade de lutar e sem crescer, deixando de cumprir o propósito para o qual foi chamada. Elas precisam passar por cura e libertação. Entenda:

          Somos uma comunidade de santos de um lado, mas também somos uma comunidade de seres humanos com todas as suas fraquezas e limitações. E nisto é que a glória de Deus quer se fazer presente, para demonstrar que ele é Deus.

Vimos neste capítulo, no próprio exemplo da igreja de Laodicéia, como certas questões da cidade estavam determinando a atitude da igreja. São as condições externas influenciando uma comunidade cristã. Uma cidade pode estar sob o domínio de Principados e potestades, e isto pode influenciar a vida do povo de Deus.

Certa ocasião, numa determinada cidade, discernimos que o problema daquela igreja, a quem ministrávamos, estava relacionado com o orgulho e a morte. Foi como se fora uma constatação dos espíritos reinantes na própria cidade.

Vimos também, no capítulo anterior, como pessoas isoladas podem também determinar a saúde ou a enfermidade de uma comunidade.

Outra questão que faz adoecer a igreja é a carnalidade, (obras de palha), a falta de santidade (vestes não brancas) e a falta de visão espiritual da própria igreja (ela precisa de um colírio).

Com os muros derribados, pela sua falta de visão, ela não só propicia a invasão de influências externas, como também por si mesma é um terreno fértil para o crescimento de todo tipo de “ervas daninhas.” Portanto, muitas são as raízes de enfermidade de uma igreja.

E a igreja enferma precisa ser curada pelo Senhor!

Sobre o autor

Wilson Lemos

Wilson Lemos

Meu nome e Wilson lemos,
sou evangelista formado em bacharel em teologia pelo instituto de teologia
SETAD.

Sou casado e tenho por missão ajudar você a crescer espiritualmente em conhecimento.

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