Estudos Bíblicos

Caráter Eclesiástico da Pregação

Caráter Eclesiástico da Pregação
Wilson Lemos
Escrito por Wilson Lemos

É no meio chamado Igreja que a pregação tem lugar. Ela está ligada à existência e à missão da Igreja. É precisamente por esta razão que ela deve ser conforme a Revelação. É preciso relembrar que esta se situa no quadro do Antigo e do Novo Testamento.

Trata-se então de um evento particular, completo, ocupando um tempo determinado na história, e não de um fato de caráter geral podendo reproduzir-se em todos os tempos e em todos os lugares.

Por conseguinte a pregação não fala de coisas resultantes da existência humana em seu estado natural e suas determinações históricas. Ela não se inspira em qualquer filosofia ou concepção do mundo e da vida, mas unicamente neste evento particular, dom de Deus em meio à história.

Ressaltemos agora que, na pregação, não se trata de um esforço do homem para ajuntar alguma coisa à Revelação. Não somos nós que provocamos o movimento que vai da primeira à segunda vinda: é unicamente graça e obra de Deus. É Deus que vem na direção dos homens, não os homens que se elevam por seus próprios meios para conquistar o que Deus lhe destina.

Assim, nossa tarefa se resume nisso: pensar o evento único, dom da graça de Deus. Se reconhecemos a impossibilidade em que estamos de fazer outra coisa, então constatamos que não podemos escolher, por razões filosóficas, políticas ou estéticas, o terreno da pregação. Não há senão um, imposto pela força das coisas, o da Igreja.

Aí existe uma relação que é anterior a tudo que conhecemos sobre esta terra em questão de relações (família, sociedade, povo, raça). Essa relação tem um caráter totalmente diverso ao da ordem da criação.

Na Igreja, onde ribomba a Palavra de reconciliação, todas as outras relações aparecem como eivadas de impurezas, como contaminadas, mergulhadas na esfera da queda e, como tais, caindo sob o golpe do julgamento.

Mas esta mesma Palavra nos diz, também, que o mal está curado, e que todo o peso das conseqüências do pecado está retirado. Aliás, na Palavra da reconciliação, há também a mensagem da criação.

Desde que ela é conforme o que Deus nos revelou, a pregação cria a reconciliação. Onde os homens recebem esta Palavra, aí está a Igreja, a reunião dos que foram chamados pelo Senhor. É somente sobre o terreno da revelação que se pode legitimamente pregar, e, de maneira alguma, o fundamento de uma reflexão sobre o homem e o cosmos.

É somente porque ribomba este apelo, e porque os homens podem entendê-lo, que há uma Igreja. Assim, o caráter eclesiástico da pregação decorre da conformidade à Revelação.

Convém esclarecer o que precede, ressaltando dois pontos. A Igreja autêntica é caracterizada pelo fato “Evangelium pure docetur et recta administrantur sacramenta” (Confissão de Augsburgo, VII). Estes dois conceitos, sacramentos e pregação do Evangelho tornam claro o liame entre a Igreja e o caráter de conformidade à Revelação.

Falemos em primeiro lugar do sacramento, que é rico de significação. Porque não se pode saber o que é a pregação, sem se saber o que é sacramento.

Não há pregação no sentido exato do termo, senão onde o sacramento a acompanha e a esclarece. O que acontece com o sacramento? O sinal visível remete ao evento da Revelação que funda a Igreja e constitui a promessa, o que não é o caso para a pregação ou qualquer outro ato eclesiástico. Porque o sacramento não é só uma palavra, é um ato material e visivelmente realizado.

O Batismo confirma o fato de que o homem pertence à Igreja. É com o Batismo, não com o nascimento, que a vida começa. Ser batizado significa: esta relação entre a Revelação e o homem, que se realiza em uma situação bem determinada, é estabelecida (Romanos 6.3). E o Batismo  se caracteriza pelo mesmo evento, mas dirigido para o futuro que é esperado por nós (I Coríntios 11.26).

Então a pregação é dada nesta Igreja onde se realizam o sacramento da graça e o da esperança, cada um, por sua vez, sendo os dois ao mesmo tempo: pois que, sacramento e pregação não podem ter sentido, um e o outro, senão na Igreja. Cada um se legitima por sua relação com o outro.

Na realidade, a pregação tira a sua substância do sacramento, que é uma referência, em ato, ao evento da Revelação. Ela é comentário e interpretação do sacramento; ela tem o mesmo sentido que ele, mas em palavras.

Se se reconhece que é realmente assim, compreende-se que a pregação não é possível, senão sobre o campo da Igreja, no lugar onde, no Batismo e na Ceia, o homem está determinado pelo próprio Deus a pertencer ao Corpo de Cristo, a ser nutrido e saciado no curso de sua viagem para a vida eterna.

E devemos saber que todos os homens que, ouvindo, são batizados, são chamados a participar da graça, e que o que começou assim para eles, encontrará sua realização.

Assim, por esta referência ao Batismo e à Ceia, a origem e o fim da pregação, assim como o caminho que ela percorre, tomam um aspecto mais concreto. Vê-se melhor o lugar do mensageiro da Palavra.

Depois dessas considerações de ordem teórica, vejamos agora como as coisas se passam na Igreja Evangélica. Vê-se, numa primeira tentativa, aparecer um déficit. Na transição da Reforma, a Igreja Sacramental de Roma foi substituída por uma Igreja da Palavra.

Imediatamente, a pregação se tornou o centro de gravidade, tendo a celebração do sacramento um caráter mais restrito.

E hoje, que vemos? De um lado, a Igreja Romana, Igreja do Sacramento, na qual a pregação é, por assim dizer, sem importância; de outro, a Igreja Evangélica, na qual há também o Sacramento, mas que não faz parte integrante e obrigatória do culto. As duas posições são uma espécie de destruição da Igreja.

O que pode realmente significar uma pregação que sobressai, em detrimento do Sacramento, uma pregação que não remete ao Sacramento que ela deve interpretar? Nós não vivemos do que o pastor sabe dizer, mas do fato de que somos batizados, do fato de que Deus nos chamou.

Tem-se então reconhecido esta lacuna dos nossos dias, e ensaia-se supri-la por todos os meios (renovação da liturgia, enriquecimento do culto pela música, etc.). Mas esses paliativos estão desde o início fadados ao fracasso, porque estão fora do verdadeiro problema.

Nos círculos que preconizam estes métodos de renovação do culto, fundamentam-se injustamente sobre Lutero. A intenção do reformador, procurando reter o máximo possível do que era válido na liturgia romana, era, antes de tudo, dar um lugar à Ceia.

E Calvino não cessava de insistir sobre a necessidade de um serviço de Ceia em cada culto dominical. E é justamente o que nos falta hoje: os Sacramentos todos os domingos.

Dever-se-ía fazer assim: no começo do culto, batizar em presença da congregação, e no fim do serviço, a Ceia; no meio, entre os dois Sacramentos, a pregação, que teria assim sua plena significação. Seria então recte administrare sacramentum et pure docere evangeliuim.

Sempre que não se tenha compreendido verdadeiramente o culto evangélico, em sua totalidade, faltar-nos-á eficiência a nossos esforços teológicos e a nossos movimentos litúrgicos. É somente onde se tem um culto corretamente, com pregação e Sacramento, que a liturgia tem seu direito, porque é somente assim que ela pode cumprir seu ofício, que é de conduzir ao Sacramento.

Não se pode separar a administração do Sacramento, do anúncio do Evangelho, porque a Igreja é uma grandeza física e histórica, porque ela é um corpo visível e real e, ao mesmo tempo em que é o corpo invisível e misterioso de Cristo, porque ela é os dois, ao mesmo tempo.

Seríamos, por certo, melhores protestantes, se nos deixássemos instruir neste ponto pelo catolicismo romano. Não negligenciar a pregação, como ele faz freqüentemente, mas restituir o lugar legítimo do Sacramento. Pode-se perguntar se a razão última de nossos esforços litúrgicos não é outra coisa, que um desejo de se encaminhar na direção dos “belos serviços” da Igreja de Roma.

O que nós temos de procurar não é um enriquecimento litúrgico daquele tipo, mas somente a verdadeira significação do Sacramento na Igreja. Seria um bom protestantismo o que deixasse que se fizesse aquilo e que, ao mesmo tempo, se esforçasse por ter uma boa pregação.

Na pregação não deve ser problema nada além da reafirmação do que concerne á Revelação, evento anterior. E se nós desejamos distinguir os dois eventos aos quais ela se refere diremos que há, de um lado o Sacramento, e do outro a Escritura Sagrada.

O sacramento remete ao fato da Revelação, o qual Deus realizou. As Escrituras Sagradas remetem à qualidade da Revelação. É ocioso opor Sacramento à pregação. Eles não podem ser separados, pois são dois aspectos de uma mesma coisa.

A Revelação, ação divina, tem lugar no seio da vida humana e da história humana. Todavia a Igreja não pode transmiti-la de um modo imediato. Para que este evento seja sempre atual e verdadeiro, ela tem necessidade das Escrituras Sagradas, que são o testemunho dos intermediários desta Revelação.

Estes intermediários são os apóstolos e os profetas. A Igreja repousa sobre o fundamento de testemunhas que foram chamadas, de uma maneira particular, a serem seus apóstolos.

Desde que se dá testemunho da Revelação – isto é, desde que se lê e se explica a Escritura – a Igreja deve compreender que ela não vive por si mesma, que esta vida não é sua própria vida, uma vida que ela tiraria de seu próprio interior, mas que ela está fundamentada sobre a única e exclusiva ação de Deus realizada em Israel e em Cristo (estes dois centros da Revelação: um povo e um Salvador).

De um lado, o povo errante que, em sua incapacidade de cumprir a Lei, cai freqüentemente no pecado e que, contudo, não é abandonado por Deus; de outro lado, a super abundância da graça, o Salvador do povo, o cumprimento da Lei e daí, o Evangelho.

Vemos bem que a Revelação não pode ser concebida como um princípio de caráter geral que regeria a relação entre Deus e o mundo. É, ao contrário, em evento que não teve lugar senão uma vez. Por esta razão, as Escrituras têm um caráter concreto, elas não são um sistema de pensamento. O fato de que se limite estritamente às Escrituras é o sinal do caráter único – único no tempo e único no modo – da Revelação.

A Igreja não representa a humanidade em geral na sua relação com Deus, ela é a humanidade reunida por obra da Revelação. É por isso que ela está fundada sobre a Escritura. Se a Igreja é constituída pelo testemunho dos apóstolos, intermediários da Revelação, qual é neste contexto, o papel da pregação? – Ela tem unicamente que explicar este testemunho.

Isso nos leva a considerar a pregação partindo de um texto. Ela não pode ser senão exclusivamente bíblica, e relaciona-se ao mesmo tempo ao Sacramento e a Palavra dos apóstolos e profetas. Não podemos dar razões a esta preferência da qual a Bíblia é o objeto, nem dizer porque escolhemos esta literatura.

Nós partimos deste fato: a Igreja é o lugar onde a Bíblia é aberta. Foi aí que Deus falou e fala. Aí Ele nos dá uma missão, uma ordem. É fundamentando-nos sobre a Bíblia que ousamos fazer o que deve ser feito. Esses escritos que estão diante de nós são anteriores ao nosso testemunho, e a pregação deve levar em conta o que foi dado anteriormente.

Em relação à Bíblia, podemos emancipar-nos tão pouco quanto uma criança em relação a seu pai. Concluindo este capítulo, diremos que o caráter eclesiástico da pregação está garantido desde que esta seja inspirada pelo Sacramento e pela conformidade à Escritura.

Sobre o autor

Wilson Lemos

Wilson Lemos

Meu nome e Wilson lemos,
sou evangelista formado em bacharel em teologia pelo instituto de teologia
SETAD.

Sou casado e tenho por missão ajudar você a crescer espiritualmente em conhecimento.

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