Estudos Bíblicos

A Ressurreição do Corpo

A Ressurreição do Corpo
Wilson Lemos
Escrito por Wilson Lemos

A ressurreição do corpo é de importância central para a mensagem escatológica bíblica. Conforme observamos anteriormente1, existe uma diferença radical entre a visão cristã e a visão grega do homem. Conforme os filósofos gregos, o corpo do homem é mau e é um obstáculo à sua existência plena.

Por causa disso, na morte, o corpo se desintegra enquanto que a alma continua vivendo – não há aqui esperança de uma ressurreição corporal. A Bíblia, ao contrário, ensina que Deus criou o homem corpo e alma, e que homem não é completo sem o seu corpo.

Tanto a encarnação como a ressurreição corporal de Cristo provam que o corpo não é mau, mas sim bom. Porque Cristo ressuscitou dos mortos, todos os que são de Cristo também ressuscitarão com corpos glorificados.

Embora aqueles que morreram em Cristo desfrutem agora de uma felicidade provisória, durante o estado intermediário, sua felicidade não será completa até que seus corpos tenham sido ressuscitados dentre os mortos. A ressurreição do corpo, portanto, é uma doutrina singularmente cristã.

Antes de discutirmos a natureza da ressurreição, temos de nos ocupar com a questão do tempo da ressurreição. Já vimos que tanto os premilenistas históricos como os dispensacionalistas separam a ressurreição dos crentes da dos incrédulos por um espaço de mil anos. Todos os premilenistas ensinam que a ressurreição dos crentes acontecerá no princípio do milênio, enquanto que ressurreição dos incrédulos ocorrerá no final do milênio2.

Os dispensacionalistas acrescentam mais duas ressurreições além dessas: a ressurreição dos santos da tribulação, ao final da tribulação de sete anos, e a ressurreição dos santos do milênio no final do milênio 3.

Temos agora de nos defrontar com a questão sobre se a Bíblia ensinou ou não tal ressurreição em duas ou quatro etapas. O principal ponto em debate aqui é o ensino comum a ambos os tipos de premilenismo, de que haverá um intervalo de mil anos entre a ressurreição dos crentes e a dos incrédulos. Podemos apresentar as seguintes considerações contra esta posição:

A primeira: A Bíblia apresenta a ressurreição de crentes e incrédulos como acontecendo conjuntamente. Uma das mais notáveis passagens do Antigo Testamento, que tratam da ressurreição dos mortos, é Daniel 12.2: “Muitos dos que dormem no ó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para vergonha e horror eterno”.

Observe que a passagem menciona a ressurreição dos justos e a dos ímpios simultaneamente, sem qualquer indicação de que a ressurreição destes dois grupos deva ser separada por um longo período de tempo.

São muito claras, sobre este assunto, as palavras de Jesus encontradas em João 5.28,29: “Não vos maravilheis disto, porque vem a hora em que todos os que se acham nos túmulos ouvirão a sua voz [do Filho do homem] e sairão: os que tiverem feito o bem, para a ressurreição da vida; e os que tiverem praticado o mal, para a ressurreição do juízo”.

Aqui igualmente encontramos a ressurreição dos crentes e a ressurreição dos incrédulos mencionadas conjuntamente. É dito especificamente por Jesus: “vem a hora em que todos os que se acham nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão”.

A implicação clara isto parece ser a de que, num tempo específico e determinado, aqui denominado “a hora” vindoura, todos os que estiverem em seus túmulos ouvirão a voz de Cristo e serão ressuscitados dos mortos. Não há aqui nenhuma indicação de que Jesus pretenda ensinar que um período extremamente longo de tempo separará a ressurreição para a vida da ressurreição para o juízo.

Deveria ser observado, contudo, que em um verso anterior Jesus utilizou a palavra “hora” para descrever o período de tempo durante o qual os seus seguidores são regenerados: “Em verdade, em verdade vos digo que vem a hora, e já chegou, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus; e os que a ouvirem, viverão” (v.25). Os dispensacionalistas argumentam que, uma vez que a “hora” mencionada no verso 25 se estende ao longo de toda a era do Evangelho, não há razão para que a “hora” mencionada no verso 28 não possa incluir duas ressurreições separadas por mil anos4.

A título de réplica, devemos primeiramente dizer que João utiliza a palavra “hora” com mais de um sentido em seu Evangelho. Sem dúvida, em 5.25, a palavra “hora” denota todo o período do Evangelho, durante o qual as pessoas que estão mortas em pecado ouvem a voz de Cristo e se tornam espiritualmente vivas. Um uso similar do termo é encontrado em 4.23: “Mas vem a hora, e já chegou, quando os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em Espírito e em verdade…” Mas, nas passagens seguintes do Evangelho de João, a palavra “hora” é utilizada no sentido de um ponto específico no tempo que ou ainda não é chegado (7.30; 8.20) ou já é chegado (12.23; 13.1; 16.21; 17.1). Temos de olhar cuidadosamente para cada passagem onde João utiliza o termo para saber exatamente o que ele quer dizer ao utilizá-lo.

Será que a palavra “hora”, como utilizada em 5.28, descreve um período de tempo que poderia ser tão longo quanto mil anos? Penso que não. Pois, primeiramente, para ser um paralelo do que é  dito no verso 25, a ressurreição dos crentes e incrédulos deveriam então estar acontecendo ao longo de todo este período de mil anos, como é o caso com a regeneração das pessoas durante a “hora” mencionada no verso 25. Mas, de acordo com a teoria em discussão, este não é o caso; antes, esta teoria ensina que haverá uma ressurreição no princípio dos mil anos e outra no final.

Quanto a isto, porém, não há qualquer indicação nessa passagem. Além disso, observe as palavras “todos os que se acham nos túmulos ouvirão a sua voz”. Esta referência parece ser a uma ressurreição geral de todos quantos estão em seus túmulos; fazer estas palavras descreverem dois grupos (ou quatro grupos) de pessoas que serão ressuscitadas em ocasiões separadas é forçar o sentido destas palavras. Além do que, esta passagem afirma especificamente que todos estes mortos ouvirão a voz do Filho do homem. A implicação clara parece ser a de que esta voz será emitida uma vez, não duas nem quatro vezes.

Se a palavra “hora” for interpretada como representando um período de mil anos a mais, isto implicaria em que a voz de Jesus continue a soar por mil anos. Será que isto é provável? O que Jesus está dizendo é o seguinte: Numa determinada hora, no futuro, minha voz será ouvida; naquele momento todos os que estão nos túmulos sairão, alguns para a ressurreição da vida e outras para ressurreição do juízo. Esta passagem ensina claramente uma ressurreição geral de todos os mortos, tanto os que tiverem feito o bem como os que tiverem feito o mal.

Uma outra passagem, onde a ressurreição de crentes e incrédulos é mencionada conjuntamente, encontra-se em Atos 24. Paulo, em sua defesa perante Félix, diz: “Eu sirvo ao Deus de nossos pais…, tendo esperança em Deus, como também este [os judeus que o acusavam] a têm, de que haverá ressurreição, tanto de justos como de injustos” (vv.14,15). No grego, assim como na tradução para o português, a palavra ressurreição está no singular (anastasin). Poderão duas ressurreições separadas por mil anos serem adequadamente denominadas de ressurreição?

Passemos agora para o Apocalipse 20.11-15:

(11) “Vi um grande trono branco e aquele que nele se assenta, de cuja presença fugiram a terra e o céu, e não se achou lugar para eles. (12) Vi também os mortos, os grande e os pequenos, postos em pé diante do trono. Então se abriram livros. Ainda outro livro, o livro da vida, foi aberto. E os mortos foram julgados, segundo as suas obras, conforme o que se achava escrito nos livros. (13) Deu o mar os mortos que nele estavam. A morte e o além entregaram os mortos que neles havia. E foram julgados, um por um, segundo as suas obras. (14) Então a morte e o inferno foram lançados para dentro do lago do fogo. Esta é a segunda morte, o lago do fogo. (15) E, se alguém não foi achado inscrito no livro da vida, esse foi lançado para dentro do lago do fogo”.

Os premilenistas, tanto os históricos como os dispensacionalistas, afirmam que aqui está descrito unicamente a ressurreição dos incrédulos. Eles dizem isso baseados em sua interpretação da visão encontrada nos versos 4 a 6 deste capítulo – uma vez que, segundo eles, a ressurreição dos versos 12 e 13 é uma elaboração mais desenvolvida da declaração encontrada no verso 5: “Os restantes dos mortos não reviveram até que se completassem os mil anos”.

Mas, conforme vimos, a interpretação premilenista dos versos 4 a 6 não é a única possível; já foi fornecida evidência para a posição de que 20.4-6 não trata de uma ressurreição corporal, nem de crentes nem de incrédulos. Os premilenistas devem admitir que Apocalipse 20.4-6 é a única afirmação clara das Escrituras que prova, ao menos para eles, que haverá duas ressurreições separadas, uma para crentes e outra para incrédulos, com um intervalo, entre elas, de mil anos.

Porém este ensino estaria então baseado numa interpretação literal de uma passagem de um livro altamente simbólico, contrapondo-se ao ensino claro de outras passagens (como João 5.28, e Atos 24.15) de que a ressurreição de crentes e incrédulos será simultânea. O comentário de George L. Murray acerca da interpretação premilenista de Apocalipse 20.4-6 é bem incisivo sobre a questão.

“A anomalia com que nos defrontamos aqui é que se pode ler toda a Bíblia sem descobrir qualquer sinal desta doutrina [a doutrina das duas ressurreições separadas por mil anos] até que se chega ao seu antepenúltimo capítulo. Se, ao chegar a esse capítulo, a pessoa der uma interpretação literal a uma sentença de uma passagem altamente simbólica, essa pessoa então perceberá que é necessário voltar tudo novamente e interpretar todos os ensinos escatológicos da Bíblia de modo a que concordem com esta única diferença.

Uma regra consagrada da exegese é a de interpretar uma passagem obscura das Escrituras à luz de uma afirmação clara. Neste caso, as afirmações claras estão sendo interpretadas de modo a concordarem com a interpretação literal de uma sentença num contexto repleto de simbolismo, cujo sentido verdadeiro é altamente discutível” 5.

Passemos agora a olhar mais de perto Apocalipse 20.11-15. Observe a referência aos “mortos, os grandes e os pequenos, postos em pé diante do trono” (v.12). Por que deveríamos limitar a significação destas palavras a uma descrição dos incrédulos? Como pode algum morto ser excluído deste grupo? Observe também a declaração de que o mar entregou os mortos que nele estavam (v.13). Haverá, então, somente mortos incrédulos no mar? Veja igualmente a afirmação: “a morte e o Hades entregaram os mortos que nele havia” (v.13). Com certeza o Hades, o Reino dos mortos6, inclui todos os mortos, não apenas os mortos que eram incrédulos7.

Lemos no verso 12 acerca da abertura dos livros. Conforme a última parte do verso 12, estes livros devem conter um registro do que cada um tem feito8. Mas não há nada que indique que estes livros contenham apenas material para condenação. O livro da vida, mencionado nos versos 12 e 15, é geralmente entendido como indicando a lista dos eleitos de Deus. O verso 15 nos diz que se o nome de alguém não for achado escrito nesse livro da vida, essa pessoa foi lançada no lago do fogo.

Contudo, haverá qualquer indicação nesta passagem de que nenhum dos que estavam perante o grande trono branco tivesse seu nome escrito no livro da vida? Na verdade, haveria qualquer razão em se dizer: “E, se alguém não foi achado inscrito no livro da vida”, e se toda a visão tratasse unicamente de pessoas cujos nomes não estavam escritos naquele livro? 9

Portanto, é totalmente inconvincente a tentativa de restringir a ressurreição descrita em Apocalipse 20.11-15 unicamente ao incrédulos. Esta passagem descreve claramente uma ressurreição geral de todos os mortos”; “deu o mar os mortos que nele estavam”; “a morte e o Hades entregaram os mortos que neles havia. E foram julgados, um por um, segundo as suas obras”.

A segunda: a Bíblia ensina que os crentes serão ressuscitados há hora da Segunda Vinda de Cristo, cuja ocasião é denominada “o último dia”. Entre as passagens que ensinam que a ressurreição dos crentes acontecerá na hora da Segunda Vinda  estão as seguintes: 1 Tessalonicenses 4.16: “Porquanto o Senhor mesmo, dada a sua palavra de ordem, ouvida a voz do arcanjo, e ressoada a trombeta de Deus, descerá dos céus, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro…”; Filipenses 3.20,21: “Pois a nossa pátria está nos céus, de onde também aguardamos o salvador, o Senhor Jesus Cristo, o qual transformará o nosso corpo de humilhação, para ser igual ao corpo da sua glória…”; 1 Coríntios 15.23: “Cada um, porém, por sua própria ordem: Cristo, as primícias; depois os que são de Cristo, na sua vinda”.

Entretanto, ao olharmos para o sexto capítulo do Evangelho de João, aprendemos que a ocasião em que os crentes forem ressuscitados dentre os mortos é chamada por Jesus de “o último dia”: “De fato, a vontade de meu Pai é que todo homem que vir o Filho e nele crer, tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia” (v.40; cp.vv. 39,44 e 54). De acordo com premilenismo, tanto histórico como dispensacionalistas, é afirmado que a ocasiões em que os crentes deverão ser ressuscitados terá lugar pelo menos uns mil anos antes da instauração do estado final. Mas, como pode uma ocasião que ocorre mil anos antes do fim ser chamada de “último dia”?

A terceira: os argumentos para uma ressurreição em duas etapas baseados em  1 Tessalonicenses 4.16 e 1 Coríntios 15.23, 24 não são conclusivos. Um dos argumentos baseados nestas passagens é que em nenhuma delas os incrédulos são mencionados; por isso é suposto que a ressurreição dos crentes aconteça numa ocasião diferente da dos incrédulos. Todavia, a razão pela qual Paulo não menciona os incrédulos, em ambas as passagens, é que ele está tratando unicamente da ressurreição dos crentes, que difere, em princípio da ressurreição dos incrédulos.

Quando Paulo está descrevendo as bênçãos que os cristãos recebem de Cristo, com respeito à sua ressurreição, ele possivelmente não pode incluir os incrédulos, pois estes não recebem tais bênçãos. O fato de Paulo não mencionar os incrédulos em nenhum destes dois textos efetivamente não prova, de forma alguma, que os incrédulos não sejam ressuscitados dentre os mortos na mesma ocasião em que os crentes o são.

1 Tessalonicenses 4.16, que acabamos de citar, diz em parte: “E os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro”. Alguns premilenistas afirmam que a expressão “ressuscitarão primeiro” implica em que os crentes serão ressuscitados antes dos incrédulos. Mas mesmo um exame superficial desta passagem revelará que aqui o contraste não é entre a ressurreição de crentes e incrédulos, mas entre a ressurreição dos mortos em Cristo e o arrebatamento dos crentes que ainda estiverem vivos quando Cristo retornar. Paulo está dizendo aos Tessalonicenses que a ressurreição dos crentes mortos precederá a transformação e o arrebatamento dos crentes que estiverem vivos por ocasião da Parousia.

1 Coríntios 15.23,24 diz o seguinte: “Cada um porém, por sua própria ordem: Cristo, as primícias, depois os que são de Cristo, na sua vinda. E então virá o fim, quando ele entregar o Reino ao Deus e Pai, quando houver destruído todo principado, bem como toda potestade e poder”. A interpretação que encontra uma possível referência ao milênio nesta passagem já foi discutida e respondida anteriormente10. Assim como não há nesta passagem evidência conclusiva para um futuro reinado terreno de mil anos, também não existe aqui nenhuma evidência conclusiva de que os incrédulos serão ressuscitados muito tempo depois de os crentes terem sido ressuscitados. Em todo este capítulo, Paulo não diz coisa alguma acerca da ressurreição dos incrédulos; seu ensino aqui ocupa-se apenas da ressurreição dos crentes.

Concluímos que não há base, nas Escrituras, para a teoria de uma ressurreição dupla ou quádrupla. O ensino claro da Bíblia é de que, na ocasião da volta de Cristo, haverá uma ressurreição geral tanto de crentes como de incrédulos. Após esta ressurreição geral se seguirá o juízo.

Abordaremos agora a questão da natureza da ressurreição. Como é de se esperar, o ensino neotestamentário, sobre a ressurreição do corpo, é bem mais explícito e detalhado do que o ensino do Antigo Testamento. Já no capítulo 9 ficou evidente que, desde o Antigo Testamento, aprendemos que há uma diferença entre o destino do justo e o do ímpio após a morte. Em algumas das citadas encontramos uma indicação ocasional sobre a possibilidade da ressurreição do corpo. Vimos tal indicação especificamente em Salmos 16.10: “Pois não deixarás a minha alma no Sheol; nem permitirás que o teu Santo veja corrupção” (ASV) 11. À luz do uso que Pedro faz desta passagem, em seu sermão de Pentecostes (Atos 2.27,31), podemos ver nestas palavras uma predição clara da ressurreição de Cristo.

Existem duas passagens do Antigo Testamento, ambas nos profetas, que falam explicitamente da ressurreição do corpo. A primeira delas é Isaías 26.19: “os vossos mortos e também os seus cadáveres viverão e ressuscitarão: despertai e exultai, os que habitais no pó!” Isaías faz aqui um contraste entre o destino futuro dos crentes mortos (“vossos mortos”) e o destino dos inimigos de Judá, acerca dos quais ele falara no verso 14: “Eles estão mortos, eles não viverão; eles são sombras, não ressuscitarão”. Isaías 26.19, portanto, fala apenas sobre a ressurreição corporal futura dos crentes – especificamente dos crentes entre os israelitas.

Daniel 12.2, entretanto, fala tanto da ressurreição de crentes como de incrédulos: “Muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para vergonha e horror eterno”. Este é o único lugar no Antigo Testamento, onde aparece a expressão vida eterna (chayyey olam). Daniel aqui dá testemunho claro da ressurreição futura do corpo, e do fato de que haverá uma ressurreição não apenas para a vida eterna, mas também para o horror eterno.

O mesmo termo hebraico olam (pelas eras, ou eterno) é utilizado para qualificar a bem-aventurança dos justos e a infelicidade dos ímpios. Uma dificuldade da passagem é o uso da palavra muitos, no início do texto, onde se esperaria a palavra todos12. Talvez o termo muitos esteja empregado aqui para se referir àqueles que morreram durante o “tempo da tribulação” mencionado no verso anterior; ou talvez muitos seja, neste caso, um equivalente hebraico para todos.

Provavelmente é correto dizer que a ressurreição predita aqui por Daniel seja limitada aos israelitas; isto, entretanto, não é de surpreender, à luz do fato de que Israel representa o povo de Deus nos profetas, e qualquer mensagem acerca do povo de Deus tem de ser expressada em termo de Israel. De qualquer forma, temos nesta passagem um ensino explicito do Antigo Testamento acerca de uma ressurreição do corpo que será tanto para a vida eterna como para a condenação eterna.

Passando agora a examinar o ensino neotestamentário acerca da ressurreição, encontramos, bem no centro desse ensino, a ressurreição de Jesus Cristo. As Escrituras deixam amplamente claro o fato de que a ressurreição de Cristo é o penhor e garantia da ressurreição futura dos crentes. Todas as ressurreições anteriores que a Bíblia menciona foram novamente seguidas pela morte13; somente a ressurreição de Cristo nunca será seguida pela morte – e é este tipo de ressurreição que os crentes aguardam. Pelo fato de Cristo ter ressuscitado, os crentes também deverão ressuscitar.

Este fato é ensinado em várias passagens do Novo Testamento. Em 1 Coríntios 15.20, lemos: “Mas de fato Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo ele as primícias dos que dormem”. A palavra primícias (aparche) indica a primeira parte de uma colheita, que garante seu complemento final; desta forma a ressurreição de Cristo é prova e garantia de que nós, que estamos em Cristo, também ressuscitaremos dos mortos. Em Colossenses 1.18, lemos que Cristo é “o primogênito (prototokos) de entre os mortos”. O fato que Cristo aqui ser chamado de primogênito implica em que aqueles que são seus irmãos e irmão também ressuscitarão de entre os mortos, a fim de que, conforme aprendemos de Romanos 8.29, Cristo possa ser “o primogênito entre muitos irmãos”. Em João 14.19, na verdade Cristo especificamente diz aos seus discípulos: “Porque eu vivo, vós também vivereis”.

Aprendemos de Romanos 8.11 não somente a íntima ligação entre a ressurreição de Cristo e a ressurreição dos crentes, mas também o fato de que a ressurreição dos crentes será uma obra do Espírito Santo: “Se habita em vós o Espírito daquele que ressuscitou a Jesus dentre os mortos, esse mesmo que ressuscitou a Cristo Jesus dentre os mortos, vivificará também os vossos corpos mortais, por meio do seu Espírito que em vós habita”.

Em Filipenses 3.20, 21, Paulo ensina que os corpos ressurrectos dos crentes serão semelhantes ao corpo ressurrecto de Cristo: “Pois a nossa cidadania está no céu, de onde também aguardamos o salvador, o Senhor Jesus Cristo, o qual transformará o nosso corpo de humilhação, para ser igual ao corpo da sua glória, segundo a eficácia do poder que ele tem de até subordinar a si todas as coisas” (ASV).

Nosso corpo atual é descrito aqui como “o corpo de nossa humilhação – humilhação por causa dos resultados do pecado. Podemos considerar coisas tais como sofrimento, dor, doença, fadiga e morte. Mas na ressurreição, os corpos dos crentes se tornarão como o corpo de glória de Cristo, de onde todos os resultados do pecado, inclusive a morte, terão sido removidos. Na hora da ressurreição, portanto, nós que estamos em Cristo seremos totalmente como ele, não somente em relação a nossos espíritos, mas também no que diz respeito a nossos corpos.

Como efetivamente tem acontecido, várias questões podem ser levantadas acerca da ressurreição do corpo. Este corpo ressurrecto deverá ser material, isto é, físico? Haverá alguma semelhança entre o corpo que temos hoje e o corpo que teremos no futuro? Ou será que o corpo ressurrecto deverá ser tão diferente do corpo atual que não se poderá falar de identidade? De que forma o corpo ressurrecto será diferente do corpo atual?

Para tentarmos encontrar respostas a estas e a outras questões semelhantes, passemos a examinar 1 Coríntios 15, o capítulo  que contém o tratamento mais completo, em toda a Bíblia, a respeito da ressurreição do corpo. Não é fácil determinar, exatamente, qual era o erro combatido por Paulo neste capítulo. O verso 12 diz:  “Ora, se é corrente pregar-se que Cristo ressuscitou dentre os mortos, como, pois, afirmam alguns dentre vós que não há ressurreição de mortos?”

A partir deste verso  parece que a ressurreição corporal de Cristo não era negada em Corinto, mas que alguns dos Coríntios (e apenas alguns) negavam a ressurreição corporal dos crentes. Podemos apenas supor que isto foi feito sob influência do pensamento grego, que ensinava a imortalidade da alma mas negava a ressurreição do corpo. Paulo combate este erro indicando que, se alguém crê na ressurreição de Cristo, essa pessoa não mais pode negar a ressurreição dos crentes14.

Paulo passa agora a combater essa visão errônea, discorrendo primeiramente sobre o fato da ressurreição (vv.12 a 34), depois sobre o modo da ressurreição (vv. 35 a 49) e, finalmente, sobre a necessidade da ressurreição e da transformação dos crentes vivos (vv. 50 a 57). O fato da ressurreição dos crentes é provado, primeiramente, pela referência à ressurreição de Cristo: “Ora, se á corrente pregar-se que Cristo ressuscitou dentre os mortos, como, pois, afirmam alguns dentre vós que não há ressurreição de mortos? E, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação e vã a vossa fé” (vv.12-14). Em outras palavras, não se pode negar a ressurreição dos crentes sem negar a ressurreição de Cristo, uma vez que as duas são inseparáveis. E se alguém negar a ressurreição de Cristo, sua fé é em vão – ele ainda está em seu pecado.

Paulo agora prossegue destacando o assunto já referido, a saber, que a ressurreição de Cristo é a garantia da ressurreição dos crentes. No verso 20, Cristo é chamado de as primícias daqueles que dormem. No verso 21 lemos que assim como a morte veio por um homem, por um homem (isto é, por Jesus Cristo) veio também a ressurreição dos mortos. E aprendemos, no verso 22, que assim como todos morreram em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo. Nesta última passagem, o primeiro todos se refere a todos os que estão em Adão – isto é, todos os homens.

O segundo todos, porém, refere-se a todos os que estão em Cristo – isto é, todos os crentes. Nesta passagem, Paulo não fala da ressurreição de incrédulos; ele está tratando aqui apenas da ressurreição dos crentes. Por essa razão, ele destaca, nestes versos, que pelo fato de Cristo ter ressuscitado, todos aqueles que estão em Cristo ressuscitarão com ele. na verdade, esta ressurreição dos crentes é um aspecto necessário na obra mediadora de Cristo, pois “o último inimigo a ser destruído é a morte” (v.26).

No verso 35, Paulo começa a discorrer sobre o modo da ressurreição. Primeiramente, ele apresenta a figura da semente: “Mas alguém dirá: Como ressuscitam os mortos? E com que corpo vêm? Insensatos! O que semeias não nasce, se primeiro não morrer; e quando semeias, não semeias o corpo que há de ser, mais o simples grão, como de trigo, ou de qualquer outra semente. Mas Deus lhe dá corpo como lhe aprouve dar, e a cada uma das sementes o seu corpo apropriado” (vv.35-38).

Não devemos forçar esses versos a ponto de sugerir que eles ensinem que nossos corpos atuais contenham uma espécie de gérmen ou semente do corpo ressurrecto, cuja semente permaneça intacta após o corpo ter morrido e, mais tarde, forme a base para o corpo ressurrecto. Tal idéia é pura especulação. O objetivo de Paulo é, simplesmente, este: Vocês que duvidam da possibilidade de uma ressurreição física, considerem a maravilha que há no plantio de uma semente.

Você semeia um grão de trigo no solo; então o grão morre como grão, mas, a seu tempo, Deus fará uma nova planta surgir do onde o grão foi semeado. Deus dá um “corpo” a esse grão conforme sua escolha, e a cada tipo de grão ou semente ele dá seu “corpo” peculiar. Se Deus é capaz de fazer isto com a semente, por que não poderá ele fazê-lo com o corpo humano?

Com esta ilustração, Paulo destaca três pontos: primeiro, assim como a nova planta não surgirá a menos que a semente morra como semente15, assim o corpo ressurrecto não surgirá a menos que o corpo em sua forma atual morra. Segundo, assim como não se pode, a partir da aparência da semente, dizer como se parecerá a futura planta, assim também não se pode, a partir da observação do corpo atual, dizer exatamente como será o corpo ressurrecto. Terceiro, assim como existe uma continuidade entre a semente e a planta, assim também haverá continuidade entre o corpo atual e o corpo ressurrecto.

A figura da semeadura e da ceifa é continuada nos versos 42 a 44, onde Paulo apresenta alguns contrastes notáveis entre o corpo atual e o corpo ressurrecto: “Pois assim também é a ressurreição dos mortos. Semeia-se o corpo na corrupção, ressuscita na incorrupção. Semeia-se em desonra, ressuscita em glória. Semeia-se em fraqueza, ressuscita em poder. Semeia-se corpo natural, ressuscita corpo espiritual” (ASV).

A referência ao semear (“semeia-se”) é, provavelmente, uma descrição figurada do sepultamento, uma vez que o ato de sepultar um corpo tem alguma similaridade com o plantar uma semente no solo. Dever-se-ia lembrar, entretanto, que em cada caso a descrição do corpo, na primeira metade da comparação, se aplica a todo o tempo da existência atual do corpo e não somente a sua condição na ocasião do sepultamento.

O primeiro destes quatro contrastes é entre corrupção e incorrupção. Nossos corpos naturais, diz Paulo, são corpos de corrupção (phthora); a semente da doença e da morte está neles, de modo que a morte destes corpos é apenas uma questão de tempo. Mas nossos corpos serão ressuscitados na incorruptibilidade (aphtharsia). Toda a susceptibilidade à doença terá passado. Não estaremos mais a caminho de uma certa morte, como estamos agora, mas desfrutaremos então de um tipo de existência incorruptível.

O segundo contraste é entre desonra (atimia) e glória (doxa). Por ocasião do sepultamento, tentamos honrar os mortos vestindo-os com suas melhores roupas, providenciando um esquife atraente, e cercando o esquife de flores, mas de fato um sepultamento envolve muita desonra. O que poderia ser mais desonroso para um corpo do que ser baixado à sepultura? Os corpos dos crentes, porém, ressuscitarão em glória – não somente um tipo exterior de glória, mas uma glória que transformará a pessoa desde o interior. Já vimos Filipenses 3.21 que o corpo ressurrecto será como o corpo glorificado de Cristo – radiante, brilhante, talvez até ofuscante. Na verdade não saberemos como é esta glória até que nós mesmos a vejamos e a experimentemos.

O terceiro contraste é entre fraqueza (ashtneia) e poder (dynamism). Após algumas horas de trabalho neste corpo atual, já ficamos cansados e precisamos de repouso. Em qualquer coisa que tentarmos fazer, estamos sempre conscientes de nossa fraqueza ou limitações humanas. À medida que a morte se aproxima, na verdade, o corpo fica totalmente desamparado. Mas, na ocasião da ressurreição, este corpo será ressuscitado em poder. Exatamente como esse poder se revelará é assunto de especulação; nós o saberemos quando o virmos. Ficará patente que não mais haverá a fraqueza que agora nos coíbe em nosso serviço ao Senhor.

Temos de gastar um pouco mais de tempo com o quarto contraste. Este é entre um corpo natural (soma psychikon) e um corpo espiritual (soma pneumatikon). Uma das dificuldades que encontramos aqui é que a expressão “corpo espiritual” levou muitos a pensar que o corpo ressurrecto não será um corpo físico – neste caso, espiritual é considerado em contraste com físico.

É fácil demonstrar que isso não é assim. O corpo ressurrecto do crente, conforme vimos, será como o corpo ressurrecto de Cristo. Mas, com certeza, o corpo de Cristo foi um corpo físico; ele pôde ser tocado (João 20.17,27) e pede ingerir alimentos (Lucas 24.38-43). Além disso, a palavra espiritual (Pneumatikos) não descreve o que é imaterial ou não físico. Observe como Paulo utiliza o mesmo contraste na mesma epístola, em 2.14,15: “Ora, o homem natural (psychikos) não aceita as coisas do Espírito de Deus: elas lhe são loucura; e ele não as pode conhecer, porque elas se discernem espiritualmente.

Mas aquele que é espiritual (pneumatikos) discerne todas as coisas, e ele mesmo não é julgado por ninguém”. (ASV). Aqui as mesmas palavras gregas, psychicos e pneumatikos são utilizadas do mesmo modo que em 15.44. Mas espiritual (pneumatikos) não significa não-físico nesta passagem. Antes, significa alguém que é guiado pelo Espírito Santo, pelo menos em princípio, em distinção a alguém que é guiado unicamente por seus impulsos naturais. De modo semelhante, o corpo natural, descrito em 15.44, é um corpo participante desta existência atual, amaldiçoada pelo pecado; mas o corpo espiritual da ressurreição é um corpo que será totalmente – não apenas parcialmente – dominado e dirigido pelo Espírito Santo16.

O homem, em seu corpo atual, relacionado com o primeiro Adão, é psychikos, natural, pertencente a esta era presente e, por essa razão, facilmente tentado ao erro. Sem dúvida, a pessoa que está em Cristo é agora capaz de resistir à tentação, de dizer não ao diabo e de viver uma vida nova e obediente. Mas a nossa obediência, nesta vida presente, continua imperfeita; nós percebemos que ficamos bem longe do ideal e ainda necessitamos diariamente de confessar nossos pecados.

Nossa existência futura, porém, será uma existência total e completamente governada pelo Espírito Santo, de modo que nunca mais teremos algo a ver com o pecado. Por essa razão o corpo da ressurreição é denominada de corpo espiritual. Geerhardus Vos está correto ao insistir que deveríamos, neste verso, escrever a palavra espiritual com letra maiúscula, a fim de deixar claro que o verso descreve o estado no qual o Espírito Santo governa o corpo17.

Se o corpo ressurrecto fosse imaterial ou não-físico, o diabo teria alcançado uma grande vitória, pois Deus então teria sido levado a transformar seres humanos, que ele criou com corpos físicos, em criaturas de uma espécie diferente, sem corpo físico (como os anjos). Então, realmente pareceria que a matéria tivesse se tornado intrinsecamente má, de modo que tivesse de ser eliminada. E então, em certo sentido, teria sido provado que os filósofos gregos tinham razão.

Mas a matéria não é má; ela é parte da boa criação de Deus. Por causa disso, o alvo da redenção de Deus é ressurreição do corpo físico, e a criação de uma nova terra na qual seu povo redimido possa viver e servir para sempre a Deus com corpos glorificados. Dessa forma, o universo não será destruído, mas sim renovado, e Deus conquistará a vitória18.

Em 1 Coríntios 15.50-57, Paulo trata da questão da necessidade da ressurreição do corpo. Quando Paulo diz no verso 50: “carne e sangue não podem herdar o Reino de Deus”, ele não está tentando dizer que o corpo ressurrecto não será físico, mas antes que “o homem, como é agora, uma criatura frágil e perecível, não pode ter um lugar no Reino glorioso e celestial de Deus” 19. Ele prossegue dizendo: “nem a corrupção (phthora) herdar a incorrupção (aphtharsia)” (v.50). O que Paulo está dizendo aqui é que, para nós, é impossível em nosso presente estado, em nossos corpos atuais, fracos e perecíveis como são, herdar a plenitude das bênçãos da vida por vir. Tem de haver uma transformação.

Sendo este o caso, a transformação não pode apenas envolver aqueles crentes que tiverem morrido até a hora da volta de Cristo, mas também aqueles crentes que, então, ainda estiverem vivos. Por isso Paulo continua dizendo, nos versos 51, 52: “Eis que vos digo um mistério: nem todos dormiremos, mas transformados seremos todos, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao ressoar da última trombeta. A trombeta soará, os mortos ressuscitarão incorruptíveis e nós seremos transformados”.

Esta transformação, que é necessária, de um corpo perecível em um imperecível, o será tanto para os vivos como para os mortos. A glorificação dos crentes, que ainda estiverem vivos quando Cristo vier, será instantânea. Na ocasião da volta de Cristo, em outras palavras, tanto a ressurreição dos mortos como a transformação dos vivos acontecerão numa sucessão rápida. Vemos, em 1 Tessalonicenses 4.16,17, que o arrebatamento dos crentes – sua elevação para encontrar o Senhor nos ares – acontecerá imediatamente após.

Agora Paulo expressa, de modo positivo, o que tinha expressado negativamente no verso 50: “Porque é necessário que este corpo corruptível se revista da incorruptibilidade, e que o corpo mortal se revista da imortalidade” (v.53). Dessa forma, Paulo mostrou que tanto a ressurreição dos  crentes mortos como a transformação dos crentes vivos são absolutamente necessárias para que os crentes desfrutem das glórias da vida futura. Somente depois de isto ter acontecido é que terá ocorrido a vitória final sobre a morte: “E quando este corpo corruptível se revestir de incorruptibilidade, e o que é mortal se revestir de imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrita: Tragada foi a morte pela vitória” (v.54).

Já levantamos, anteriormente, a questão sobre se haverá continuidade entre o corpo atual e o corpo ressurrecto. Com base nos dados das Escrituras, deve ser dito que haverá tanto continuidade como diferença. Tem de haver continuidade, pois, de outra forma, não faria sentido falar acerca da ressurreição. O ato de chamar à existência um grupo completamente novo de pessoas totalmente diferentes dos habitantes atuais da terra não seria uma ressurreição.

Quando Paulo diz que os mortos serão ressuscitarão (1 Co 15.52) e que nós, que estivermos vivos, seremos transformados (v.52), com certeza ele quer dizer que haverá algum tipo de continuidade entre estes dois estágios de existência. Na verdade, é exatamente a linguagem do verso 53 que implica e, mesmo, exige uma continuidade: “Porque é necessário que este corpo corruptível se revista da incorruptibilidade, e que o corpo mortal se revista da imortalidade” [grifos meus].

Lembramos, também, o que Paulo diz em 1 Tessalonicenses 4.17, após ter descrito a ressurreição dos crentes e o subseqüente arrebatamento da igreja: “E assim estaremos para sempre com o Senhor”. Aqueles que estarão para sempre com o Senhor, após sua ressurreição ou transformação, não serão criaturas diferentes de nós mesmos, mas seremos nós.

Mesmo assim, embora haja continuidade, também haverá diferença. Já examinamos passagens que descrevem essas diferenças, especialmente 1 Coríntios 15. Observaremos agora dois outros textos que mencionam diferenças específicas entre o corpo presente e o corpo ressurrecto. Conforme Mateus 22.30 (e as passagens paralelas: Marcos 12.25 e Lucas 20.35) Jesus ensinou que, na vida por vir, não haverá casamento: “Porque na ressurreição nem casam nem se dão em casamento; são, porém, como os anjos no céu”.

Podemos presumir que a semelhança com os anjos se aplica unicamente ao ponto mencionado, não à ausência de corpos físicos. O ensino de Jesus aqui não implica, necessariamente, que não haja diferenças de sexo na vida por vir. O que efetivamente vemos, contudo, é que a instituição do casamento não mais estará existindo pois não haverá necessidade de trazer novas crianças ao mundo.

Uma segunda passagem, que sugere uma diferença, encontra-se em 1 Coríntios 6.13: “Os alimentos são para o estômago, e o estômago para os alimentos; mas Deus destruirá tanto este como aquele”. A palavra aqui traduzida por “destruirá”, Katargeo, freqüentemente significa abolir, suprimir ou trazer ao fim. Parece que, conforme esta passagem, as funções digestivas do corpo não mais serão necessárias na vida por vir.

Entretanto, temos de confessar que a Bíblia nos diz muito pouco acerca da natureza exata do corpo ressurrecto. São-nos dados alguns indíviduos, mais muito ainda fica por ser dito. De fato, é interessante observar que muito do que a Bíblia diz, acerca da existência futura, está em termos negativos: ausência de corrupção, fraqueza e desonra; ausência da morte; ausência de lágrimas, lamentação, choro ou dor (1 Co 15.42, 43; Ap 21.4).

Sabemos alguma coisa acerca do que não experimentaremos, mas sabemos pouco acerca do que vamos experimentar. Tudo o que realmente sabemos é que será maravilhoso, além de nossa mais alta imaginação. As palavras que Paulo profere, em outro contexto, são provavelmente aplicáveis aqui: “O olho não viu, nem o ouvido ouviu, nem penetrou no coração humano, as coisas que Deus tem preparado para aqueles que o amam” (1 Co 2, 9 , KJ) 20.

Notas do Capítulo 17

  1. Ver acima, capítulo 8.
  2. Ver acima, pp. 241-243, 252, 254
  3. Ver acima, pp. 252, 254 Uma vez que os premilenistas afirmam que ainda haverá morte durante o milênio, eles também precisam defender uma ressurreição dos crentes que morreram durante o milênio, em adição às duas ressurreição mencionadas acima.
  4. Ver NSB, p.1131, número 1: “Uma vez que esta hora de regeneração espiritual já tem perdurado por mais de dezenove séculos é também possível que a futura “hora” da ressurreição física (vs. 28,29) se estenda por mil anos – os justos sendo ressuscitados no princípio; os ímpios no final. Ver Apocalipse 20”. Cp. também, Pentecost, Things to Come (Coisas Por Vir), p. 400.
  5. Millennial Studies (Estudos do Milênio), Grand Rapids, Baker, 1948, pp. 153, 154.
  6. Ver acima, pp.130, 131.
  7. Embora em Lucas 16.23, conforme vimos (acima, pp. 131, 132), Hades parece ser usado para descrever o lugar de punição do ímpios durante o estado intermediário, não há indicação de que esta palavra seja utilizada neste sentido restrito em Apocalipse 20.13, especialmente não porque nesta passagem Hades é colocado em paralelo com morte.
  8. Provavelmente, não devemos pensar em livros no sentido literal nem aqui, nem no caso do “livro da vida”.
  9. Para uma refutação mais ampla da teoria da ressurreição, em duas etapas, ver David Brown, Christ’s Second Coming (A Segunda Vinda de Cristo), New York: Carter, 1851, pp. 190-217.
  10. Ver acima, p. 245.
  11. Ver acima, pp. 128-130.
  12. A palavra todos, na verdade, é utilizada na passagem neotestamentária que faz eco a estas palavras de Daniel: João 5.28,29.
  13. Pensamos e.g., de ressurreições tais como a do filho da viúva de Sarepta (1 Reis 17.17-24) e do filho da mulher sunamita (2 Reis 4.32-37); bem como na ressurreição do filho da viúva de Naim (Lucas 7.11-17), da filha de Jairo (Mt 9.18-26) e de Lázaro (João 11.38-44).
  14. Quando Paulo utiliza a expressão “ressurreição dos mortos” (anastasis nekron), neste capítulo, ele indica uma ressurreição física ou corporal. Isto fica evidente do exemplo de Cristo, que certamente ressuscitou de modo físico (ele pôde ser tocado e pôde comer; ver Lc 24.38-43). Fica evidente também pela consideração de que um tipo não-físico de “ressurreição” seria equivalente ao conceito grego da “imortalidade da alma” – um conceito que os hereges de Corinto provavelmente aceitaram como substituto para a ressurreição física.
  15. A vida da semente continua, mas a semente não mais existe como semente depois de a nova planta ter começado a se formar.
  16. Por causa disso, a tradução de 1 Coríntios 15.44, pela RSV, é confusa: “Semeia-se corpo físico, ressuscita corpo espiritual”. É melhor, como o fazem KJ, ASV e NIV, traduzir soma psychikon por corpo natural.
  17. Pauline Eschatology (Escatologia Paulina), p.167.
  18. Sobre o significado de “corpo espiritual” em 1 Coríntios 15.44 ver também J.A Schep, The Nature of the Ressurrection Body (A Natureza do Corpo Ressurrecto), Grand Rapids, Eerdmans, 1964, Cap. 6; M.E. Dahl The Ressurrection of the Body (A Ressurreição do Corpo), London: SCM, 1962; e H. Ridderbos, Paul , pp.537-551
  19. Schep, op.cit., p. 204.

20.       A Bíblia diz muito pouco acerca da ressurreição dos incrédulos. Já observamos as passagens que mencionam especificamente este aspecto da ressurreição (Daniel 12.2; João 5.28,29; Atos 24.15). A ressurreição dos incrédulos é parte do julgamento de Deus sobre eles, e por causa disso reflete mais a obra de Cristo como juiz do que sua obra como salvador.

Sobre o autor

Wilson Lemos

Wilson Lemos

Meu nome e Wilson lemos,
sou evangelista formado em bacharel em teologia pelo instituto de teologia
SETAD.

Sou casado e tenho por missão ajudar você a crescer espiritualmente em conhecimento.

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