Estudos Bíblicos

A Igreja e o Sal de Fora do Saleiro

A Igreja e o Sal de Fora do Saleiro
Wilson Lemos
Escrito por Wilson Lemos

Jesus viveu os Seus três anos de ministério como sal fora do saleiro. E quando Ele nos diz “(…) Vós sois o sal da terra”, Jesus nos está revelando essa dinâmica que consiste em afirmar que, primeiramente, alguma coisa é, e, depois que é, passa a ser efetivamente dentro de um outro conteúdo.

Quando vemos os três anos do Seu ministério, constatamos as ações claras de Deus agindo, dando o Seu gosto ao desgosto da vida.

Primeiramente, observamos os cenários da liberdade de Jesus para viver o gosto de Deus no desgosto da terra. Vale dizer que todos esses cenários são contrários, avessos ao confinamento da religião. É na sociedade, e no mundo, onde a vida mais acontece com toda a sua intensidade que Jesus se encontra.

É na vida em sociedade que Jesus marca o Seu ponto, fazendo dela o Seu “point”. Os “points” dele não são lugares tidos e consagrados como religiosos. São apenas “points”. Um dos lugares mais frequentados por Jesus conforme lemos nos Evangelhos foi a praia (Mateus 13:3; Marcos 4:1; Lucas 5:3; João 21:4) .

Obviamente que a praia dos tempos de Jesus não se compara com as praias dos dias de hoje, não sendo Jesus um “rato de praia” (embora eu, particularmente, tenha gostado muito de uma entrevista apresentada pelo Pare & Pense, em que o surfista Jojó de Oliveira, no quadro Atletas de Cristo, sendo entrevistado pelo Alex Dias Ribeiro, lhe disse que Jesus foi o primeiro surfista da terra, porque andou por sobre as águas) .

A praia representa um conteúdo de liberdade, de amplitude; uma geografia sem confinamento, livre, sem fronteiras, pela qual as pessoas passam sem impedimentos.

Essa é a praia, a beira-mar da Galileia dos gentios, em Israel. A praia, para Jesus, constitui-se num dos cenários prediletos do Seu mover. Outra expressão freqüente que encontramos nos Evangelhos, com relação a Jesus, é “a caminho” (Mateus 20:17; Marcos 8:27; Lucas 10:38; João 12:12) , mostrando que Ele vive a glória de Deus, o amor pelo Pai, a graça divina e a misericórdia eterna do Criador de todos os seres com a liberdade de quem esbanja tudo isso pelo caminho.

Jesus também frequentava vários banquetes, pois era neles que encontrava os pecadores que precisavam ser salvos: “Então lhe ofereceu Levi um grande banquete em sua casa; e numerosos publicanos e outros estavam com eles à mesa.

Os fariseus e seus escribas murmuravam contra os discípulos de Jesus, perguntando: Por que comeis e bebeis com os publicanos e pecadores? Respondeu-lhes Jesus: Os sãos não precisam de médico, e, sim, os doentes. Não vim chamar justos, e, sim, pecadores ao arrependimento.” (Lucas 5:29-32)

Jesus frequentava os cenários do dia-a-dia, como o submundo pelo qual Ele também passou. Um bom exemplo disso foi a “entrada” dele na vida dos gadarenos pagãos, criadores de porcos e desprezados pelos judeus. (Marcos 5:1-17) . Jesus pregava em praça pública, no comércio, na casa das pessoas.

Por exemplo, na casa de Zaqueu (Lucas 19:5) , na casa de Jairo (Lucas 8:41) , em casa de fariseu (Lucas 7:36) . Jesus também pregava no campo, local onde Ele faz comparações marotas:

“Olhem! Vocês querem saber como Deus é? Olhem os lírios do campo. Salomão, coitado, era um pobretão diante da riqueza com que Deus veste esses lírios!… A glória de Salomão é pálida diante desses lírios. Olhem para eles. Vejam que extravagância Divina”.

É essa mensagem que sai da terra, que sai do campo, que sai da água, que sai da mesa, que sai da montanha, local onde Ele se recolhe, onde Ele ora, onde Ele ensina um grupo menor; lugar onde Ele faz o sol se ofuscar, se ocultar diante do Seu rosto reluzente, quando da transfiguração (Mateus 17:2) .

Em outras palavras, em relação aos cenários do evangelho nos quais Jesus atuou, nós O vemos realizando, na prática, o que João disse acerca da Nova Jerusalém, quando a vislumbrou dizendo que nela encontrou rio cristalino (Apocalipse 22:1) , praça (Apocalipse 21:21) ; no entanto, não foi encontrado ali santuário:

“Nela não vi santuário…” (Apocalipse 21:22a)

Jesus, então, já vive uma “avant-première” da Nova Jerusalém, de modo que aonde Ele vai, a glória de Deus vai junto; Ele vai a um cemitério, a uma tumba e a ressurreição acontece; Ele vai a um casamento e a água transforma-se em vinho; enfim, aonde Ele vai, a glória do Cordeiro está presente.

Naqueles três anos do ministério de Jesus, não apenas vemos a atuação de alguém que vive na prática o compromisso de dar gosto ao desgosto do mundo, nos cenários os mais diversificados, mas também a manifestação disso nos relacionamentos construídos por Ele nos evangelhos.

Ser sal da Terra pode significar ser pastor de prostitutas. Ser sal da terra pode significar tornar-se amigo de fiscais corruptos, embora isto não signifique cumplicidade naquilo que praticam, mas, sim, ter um coração aberto para eles, não fechando-lhes a porta.

Ser sal da terra significa dar gosto à vida desgostosa dos lamuriantes, dos oprimidos, dos doentes, dos estivadores que carregam cargas pesadas tanto físicas, como emocionais e espirituais, aos quais Jesus diz:

“Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.” (Mateus 11:28-30)

Em outras palavras, Jesus está dizendo:

“Vinde a mim, vós que sois estivadores do diabo. Parem de carregar essa carga, porque o meu jugo e suave e o meu fardo é leve.”

Ser sal da terra, nesse contexto, significa ser gente para os desumanizados; significa trazer esperança de Deus àqueles cujos horizontes são limitados. Há pessoas que vivem uma vida tão limitada que não conseguem perceber que um dia nasceram e que um dia vão morrer. O mínimo que um indivíduo pode ter de tirocínio histórico é poder dizer:

“Sei que um dia nasci, e que um dia morrerei.”

Mas, há pessoas que nem lembram que nasceram e que um dia vão morrer. Até que vem Jesus invadindo tais vidas, ajudando-as a olhar para trás e dizer:

“Eu nasci para um propósito.”

Jesus vem, ajudando-as a olhar para a morte e dizer como o apóstolo Paulo:

“(…) Tragada foi a morte pela vitória.” (I Coríntios 15:54b)

De modo que tais pessoas podem dizer:

“Eu não sou eterno, mas tenho vida eterna. Eu não sou eterno, mas estou imortalmente ligado à vida do Senhor Jesus.”

Jesus vem ao mundo para se relacionar com pessoas desse tipo: prostitutas, pessoas corruptas e corrompidas, doentes, funcionários públicos, militares, religiosos e irreligiosos.

Para Jesus, “o que cair na rede é peixe”. É por isso que Ele conta a parábola que diz:

“O reino de Deus é ainda semelhante a uma rede que, lançada ao mar, recolhe peixes de toda espécie.” (Mateus 13:47)

Atente para a parte final do versículo: “(…) recolhe peixes de toda espécie.” Jesus acaba com o “nazismo religioso”, com a seletividade e com a segregação religiosa, recolhendo todos os tipos de pessoas.

“E quando já está cheia, os pescadores arrastam-na para a praia e, assentados, escolhem os bons para os cestos, e os ruins deitam fora. Assim será na consumação do século: Sairão os anjos e separarão os maus dentre os justos”. (Mateus 13:48-49)

Para Jesus, “caiu na rede é peixe”.

A terceira coisa que vemos na vida de Jesus nos Seus três anos de ministério, vivendo como sal de Deus, dando gosto ao desgosto do mundo, é a qualidade do conteúdo da Sua mensagem, que era uma mensagem para o lado de fora.

Os temas dos discursos de Jesus são os mais corriqueiros possíveis, ou os mais próximos da realidade humana. Dinheiro, por exemplo, é um tema sobre o qual Ele fala bastante, não para pedir, como às vezes se faz hoje em dia, desesperadamente, usando o Seu nome. Todos nós precisamos de dinheiro, não se podendo ser romântico com relação a isso.

Todos precisamos de dinheiro para fazer a obra de Deus. Mas o dinheiro não é o objetivo da nossa espiritualidade. Um pastor , certa vez, contou-me sobre uma igreja a qual ele visitou, onde assistiu a um dos espetáculos mais estarrecedores e pavorosos de sua vida. Contou-me ele que uma pessoa, à frente da igreja, dirigia-se às outras dizendo:

“Vocês não querem me dar dinheiro por quê? Vocês acham que eu sou ladrão? Se vocês dão dinheiro para alguém, dêem para mim. Se vocês não dão para mim, acabam dando para outro ladrão. Então, dê em para mim, porque, ao menos, este aqui é ladrão de Deus.”

Aquele meu amigo me disse ainda que o pastor daquela igreja conseguiu tirar tudo. Disse ele que primeiramente aquele pastor pediu R$ 10.000. Ninguém deu. Depois R$ 5.000.

Ninguém deu. Mas de R$ 500,00 para baixo, ele conseguiu alguns cheques. E, já ao final, ele pediu:

“Agora, aqueles que só têm o da passagem!”

Um monte de gente levantou-se. E ele disse:

“Então, venham aqui. Dê em, porque se vocês não derem, Deus não vai abençoá-los.”

Não era esse o dinheiro sobre o qual Jesus falava. Jesus falava do perigo do dinheiro, ao nos dominar, entrando em nosso coração, tornando-se o nosso referencial absoluto, o nosso amor, a nossa paixão, tornando-nos escravos dele.

Jesus também mostrou a natureza do dinheiro, a qual é perversa na maioria das vezes, e de como só a graça de Deus coloca o dinheiro numa direção que pode dar glória para Deus. Jesus falou de tudo: de juízes, de tribunais, de viúvas pobres (Marcos 12:43) ; falou de filhos que saem de casa e de outros que ficam aborrecidos dentro dela (Lucas 15:11-32) ; falou de como se constrói uma casa, desde a preparação dos seus alicerces (Mateus 7:24-27) ; falou de receita de cozinha (Mateus 13:33) ; falou de moedinhas perdidas (Lucas 15:8) ; falou de plantação e de como aquilo que é plantado pode ser destruído por outras sementes ruins (Mateus 13:24-30) ; falou de árvores que não dão fruto (Mateus 3:10) ; falou de assaltos em estradas e de como, às vezes, religiosos passam, indiferentes, à tragédia e à dor humana, ao passo que outros que não têm nenhuma confissão de nenhuma religiosidade são os mais solidários (Lucas 10:25-37) ; falou do drama dos trabalhadores (Lucas 10:7b) ; falou de talentos e de recursos que são mal utilizados, guardados ou timidamente enterrados (Mateus 25:24) ; enfim, falou da vida.

Jesus falou pouco de anjos, os quais são mencionados por Ele, na maioria das vezes, num plano escatológico, final.

Sobre o autor

Wilson Lemos

Wilson Lemos

Meu nome e Wilson lemos,
sou evangelista formado em bacharel em teologia pelo instituto de teologia
SETAD.

Sou casado e tenho por missão ajudar você a crescer espiritualmente em conhecimento.

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